Acordei tarde hoje, abri a janela e vi o sol já alto. Estava atrasado para o trabalho, pus a roupa às pressas, escovei os dentes e saí.
Andava rapidamente, tipo passarinho urbano, desviava de um aqui, impacientava com o sinal vermelho, carregava um sentimento de culpa por ter dormido meia-hora a mais. Passei por um mendigo deitado na calçada, a luz do sol batia em seu rosto, e sobre um cobertor lhe aquecia o corpo. Diminui o passo. Pra que a pressa? Já estava atrasado mesmo.
Chegando rápido ou não, o chefe pode me passar uma rasteira, posso cair, mas do chão não passo. Arranjo um cobertor velho e deito numa calçada e poderei dormir então, até quando eu bem entender.
Continuei, agora sem culpa nas costas, apenas a consciência, um pouco perturbadora, que tanto eu como o mendigo estamos no mesmo lugar. No mundo. Habitamos o mesmo mundo, estamos expostos aos revezes a que ele, amiúde, nos acomete e nada podemos fazer senão suportar. Dois seres, ambos desprotegidos, como qualquer outro. Humanos frágeis, isso se deve ao fato de nós simplesmente sermos. Ninguém está seguro, nem sabe do pós-vida, todo mundo balança nessa orgia niilista. Deus nos salve dos infortúnios e das doenças. Nem os santos se salvam, às vezes.
Passo em frente a um sacolão de verduras, lá de dentro vem um cheiro de tomate, tomate fresco, recém colhido, lembrei do quintal de minha antiga casa. A mãe plantava tomates, cenouras, morangos e temperos. Aquele cheiro agradável trouxe lembranças mais agradáveis ainda, me fez recordar a infância, o pomar de minha casa, tinha parreira, pé de araçá, limão, goiaba, ameixeiras amarelas e vermelhas, pé de uva-japão, até cana-de-açucar tinha.
Pra saber se tinha jogo no campinho eu subia até a copa do pé de uva-japão, e via se a piazada estava reunida, de lá assoviava, eles gritavam me dizendo se tinha quorum pra iniciar a partida...rs
Mimosa não tinha lá em casa, mas não era problema, na casa da Dona Ruth tinha um pezão, era só pular a cerca, encher os bolsos, sair correndo e torcer pra que ela não visse, ou se visse, para que sua visão já prejudicada não nos identificasse, pois caso chegasse ao ouvido dos pais e era surra quase garantida.
Agora aqui em meio ao concreto armado e mais concreto armado que não tem fim, procuro e não vejo pés de mimosa. Penso em meus filhos que um dia virão e lamento um pouco. Será que eles terão pés de mimosa e cheiro de tomate fresco pra lembrar quando forem adultos? Ou será que soltarão pipa no ventilador?
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2 comments:
Que texto lindo ^^
Que texto lindo ^^
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