Wednesday, June 27, 2007

Juvenal contra o Baal

Juvenal é ajudante de cartório, lugar onde começou trabalhar como oficebói aos 16 anos. Cresceu na vida é o orgulho da mãe, com quem coabita desde a concepção.
Juvenal tem um relógio digital com calculadora, que ganhou de presente de crisma do padrinho rico. Usa calça de linho, sapato mocassin e camisa pólo azul calcinha.
Na antiga enciclopédia que mamãe guarda na estante da sala está contida toda a inteligência do mundo, acredita Juvenal.
Em tempos de rebeldia teve uma vasta cabeleira.
Juvenal teve um amor um dia, mas ela o deixou porque Juvenal é Juvenal.
Dirigir é coisa pra louco, diz Juvenal, justificando seu temor ao trânsito.
Juvenal escreve coisas bonitas retratando lugares onde nunca esteve e situações que nunca passou. Todo dia, durante o cair da tarde, após largar o ofício, ele e sua inseparável caneca abastecida de nescau com bolacha, trazida pela mãe, estão em frente ao micro escrevendo suas sábias palavras bem providas de graciosidade.
Juvenal é defensor do bom, do belo e do justo, odeia pobres, é anti-esquerda, mesmo a moderada, e acredita que o presidente dos Estados Unidos da América é o novo messias.
E mais, Juvenal nunca está errado, pois tem como cicerones os homens mais inteligentes da face da terra. Aqueles lá da enciclopédia.

Thursday, June 21, 2007

Passado, presente e futuro

Acordei tarde hoje, abri a janela e vi o sol já alto. Estava atrasado para o trabalho, pus a roupa às pressas, escovei os dentes e saí.
Andava rapidamente, tipo passarinho urbano, desviava de um aqui, impacientava com o sinal vermelho, carregava um sentimento de culpa por ter dormido meia-hora a mais. Passei por um mendigo deitado na calçada, a luz do sol batia em seu rosto, e sobre um cobertor lhe aquecia o corpo. Diminui o passo. Pra que a pressa? Já estava atrasado mesmo.
Chegando rápido ou não, o chefe pode me passar uma rasteira, posso cair, mas do chão não passo. Arranjo um cobertor velho e deito numa calçada e poderei dormir então, até quando eu bem entender.
Continuei, agora sem culpa nas costas, apenas a consciência, um pouco perturbadora, que tanto eu como o mendigo estamos no mesmo lugar. No mundo. Habitamos o mesmo mundo, estamos expostos aos revezes a que ele, amiúde, nos acomete e nada podemos fazer senão suportar. Dois seres, ambos desprotegidos, como qualquer outro. Humanos frágeis, isso se deve ao fato de nós simplesmente sermos. Ninguém está seguro, nem sabe do pós-vida, todo mundo balança nessa orgia niilista. Deus nos salve dos infortúnios e das doenças. Nem os santos se salvam, às vezes.
Passo em frente a um sacolão de verduras, lá de dentro vem um cheiro de tomate, tomate fresco, recém colhido, lembrei do quintal de minha antiga casa. A mãe plantava tomates, cenouras, morangos e temperos. Aquele cheiro agradável trouxe lembranças mais agradáveis ainda, me fez recordar a infância, o pomar de minha casa, tinha parreira, pé de araçá, limão, goiaba, ameixeiras amarelas e vermelhas, pé de uva-japão, até cana-de-açucar tinha.
Pra saber se tinha jogo no campinho eu subia até a copa do pé de uva-japão, e via se a piazada estava reunida, de lá assoviava, eles gritavam me dizendo se tinha quorum pra iniciar a partida...rs
Mimosa não tinha lá em casa, mas não era problema, na casa da Dona Ruth tinha um pezão, era só pular a cerca, encher os bolsos, sair correndo e torcer pra que ela não visse, ou se visse, para que sua visão já prejudicada não nos identificasse, pois caso chegasse ao ouvido dos pais e era surra quase garantida.
Agora aqui em meio ao concreto armado e mais concreto armado que não tem fim, procuro e não vejo pés de mimosa. Penso em meus filhos que um dia virão e lamento um pouco. Será que eles terão pés de mimosa e cheiro de tomate fresco pra lembrar quando forem adultos? Ou será que soltarão pipa no ventilador?

Tuesday, June 19, 2007

Ontem às 18h enquanto voltava do trabalho e rumava até minha casa, fiquei encantado com o tom da cor que cobria a cidade. O sol já se recolhia entre as nuvens no oeste, naquela direção o céu era tomado pelo vermelho, o sol ainda irradiava seus últimos raios que permeavam as nuvens enrubescendo o cimento das construções e refletindo nas vidraças, e por toda a parte, dando a sensação que até o vento frio era um pouco mais cálido.
Nesse cair da tarde as pessoas iam e vinham, cada um com seus dramas e alegrias, as pessoas não param, mesmo que o céu ficasse verde acho que elas não reteriam suas marchas cotidianas para admirá-lo, afinal as cores que pintam a vida de cada um perecem-lhes mais atrativas, ou necessárias.
Pela altura da terceira ou quarta esquina antes de casa eu seguia atrás de uma senhora vestida com roupas de passeio e tênis, ela devia ter uns cinqüenta anos, seu andar era altivo e deixava transparecer em seu jeito um quê de alta classe, que era confirmado pelo cachorro que ela levava na coleira, um cachorro desses pequenos de raça peluda, devidamente tosado, com uma roupinha azul e uma gravatinha vermelha envolvendo o pescoço.
De repente eles pararam, o cachorro posicionou-se da forma adequada e cagou na calçada, bem em frente a um posto de gasolina. Apurei o passo e passei pela senhora. Não resisti, tive que olhar pra trás pra ver sua cara porca, olhei com reprovação. Ela tinha uma cara de granfina, como eu havia deduzido. Ela percebeu que eu havia observado o cachorro cagar, não estava nem aí pra minha reprovação, afinal eu sou apenas um jovem sem posses, isso é notável e visível.
Aquele rosto tinha algo de instigante e desafiador, eu tinha que enfrentá-la, diminui o passo, queria olhar novamente pra ela, agora com mais reprovação, com fúria no olhar, aquela fúria que vem guardada já há séculos, por todas as gerações do proletários contra todas as gerações na nobreza e burguesia. Respirei fundo (até senti fedor de merda de cachorro), virei o pescoço pra trás, ela novamente percebeu minha olhada, encarou ainda mais carrancuda. Diabo, perdi essa pequena batalha, pensei comigo, alguém vai pisar no cocô e praguejar o cachorro. Amanhã o cachorro vai repetir o seu feito e pode ser que distraidamente eu suje meus sapatos. A vida continua.
Segui em frente, com certo rancor e sentimento de impotência.
Ao chegar em casa voltei a lembrar do sol e de quão belo efeito e forma seus raios haviam produzido na cidade. O sol nasce pra todos, todos os dias, as pessoas só o notam quando o calor incomoda. A merda do cachorro também está nas caçadas, todos os dias, as pessoas só a notam quando sujam os sapatos.