Ontem às 18h enquanto voltava do trabalho e rumava até minha casa, fiquei encantado com o tom da cor que cobria a cidade. O sol já se recolhia entre as nuvens no oeste, naquela direção o céu era tomado pelo vermelho, o sol ainda irradiava seus últimos raios que permeavam as nuvens enrubescendo o cimento das construções e refletindo nas vidraças, e por toda a parte, dando a sensação que até o vento frio era um pouco mais cálido.
Nesse cair da tarde as pessoas iam e vinham, cada um com seus dramas e alegrias, as pessoas não param, mesmo que o céu ficasse verde acho que elas não reteriam suas marchas cotidianas para admirá-lo, afinal as cores que pintam a vida de cada um perecem-lhes mais atrativas, ou necessárias.
Pela altura da terceira ou quarta esquina antes de casa eu seguia atrás de uma senhora vestida com roupas de passeio e tênis, ela devia ter uns cinqüenta anos, seu andar era altivo e deixava transparecer em seu jeito um quê de alta classe, que era confirmado pelo cachorro que ela levava na coleira, um cachorro desses pequenos de raça peluda, devidamente tosado, com uma roupinha azul e uma gravatinha vermelha envolvendo o pescoço.
De repente eles pararam, o cachorro posicionou-se da forma adequada e cagou na calçada, bem em frente a um posto de gasolina. Apurei o passo e passei pela senhora. Não resisti, tive que olhar pra trás pra ver sua cara porca, olhei com reprovação. Ela tinha uma cara de granfina, como eu havia deduzido. Ela percebeu que eu havia observado o cachorro cagar, não estava nem aí pra minha reprovação, afinal eu sou apenas um jovem sem posses, isso é notável e visível.
Aquele rosto tinha algo de instigante e desafiador, eu tinha que enfrentá-la, diminui o passo, queria olhar novamente pra ela, agora com mais reprovação, com fúria no olhar, aquela fúria que vem guardada já há séculos, por todas as gerações do proletários contra todas as gerações na nobreza e burguesia. Respirei fundo (até senti fedor de merda de cachorro), virei o pescoço pra trás, ela novamente percebeu minha olhada, encarou ainda mais carrancuda. Diabo, perdi essa pequena batalha, pensei comigo, alguém vai pisar no cocô e praguejar o cachorro. Amanhã o cachorro vai repetir o seu feito e pode ser que distraidamente eu suje meus sapatos. A vida continua.
Segui em frente, com certo rancor e sentimento de impotência.
Ao chegar em casa voltei a lembrar do sol e de quão belo efeito e forma seus raios haviam produzido na cidade. O sol nasce pra todos, todos os dias, as pessoas só o notam quando o calor incomoda. A merda do cachorro também está nas caçadas, todos os dias, as pessoas só a notam quando sujam os sapatos.
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