- Bom dia.
- Bom dia. Pois não!?
- Me vê um quilo de moída.
- De primeira ou de segunda?
- Pode ser de segunda...
- Passou um pouco, pode ser um quilo e quatrocentos e cinqüenta?
- Não, tira um pouco.
- Assim ta bom?
- Ta ótimo.
- dois e noventa e seis
- Tá aqui.
- Tenha um bom dia.
- Igualmente
Carne, molho de tomate, sal, azeite, cebola, alho, tempero verde, acrescenta-se um a um, aos poucos, não necessariamente nessa ordem.
Batata frita.
Arroz.
Refresco colorido artificialmente com sabor artificial de abacaxi, não é necessário adicionar açúcar.
Cozinha-se, come-se, bebe-se.
A comida toda no prato, vem garfo, boca, dentes, mastiga, língua, sente, engole, garganta, estomago, digere, corpo, metaboliza, restos, defeca e evacua.
Segue-se bem nutrido e sem fome.
Batata e arroz colhidos, boi morto, homem saciado.
Homem paga ao homem que lucra, boi sangra e homem satisfeito.
Tudo efeito da cadeia da alimentar.
Darwin que tivesse vivo, ia adicioná-lo no orkut e enviar um scrap com uma pergunta marota.
Será que algum pedaço de Darwin já evoluiu de pó para capim-limão?
Digeriu, saiu de casa, passou pela banca de jornais, lá penduradas várias revistas, sobre carros ultra-velozes , negócios da china colonial, novelas brasileiras e mexicanas, esportes radicais ou de massa, dietas alimentares à base de brócolis, jornais anunciando mortes indignantes, são milhares de mortes assim todo dia, todos repudiam as injustiças por quatro segundos e meio, depois encaram a violência como um fenômeno dos tempos atuais. Jornais e mais jornais, revistas sobre ponto cruz e ponto cristo, simpatias pra conseguir o macho ideal, rock and roll, teens, Ari Toledo em áudio acompanhado por uma máquina de risos. Ah, claro, como não haveria de faltar, mulheres nuas, famosas e bonitas, defronte a elas um gari empunha sua vassoura e olhando uma capa como um cachorro olha a máquina de assar galinhas.
A lotérica está lotada, que ganhasse só cem mil, que fosse qualquer coisa que desse pra comprar qualquer sonho e já estava bom e Deus teria presença em sua oração de agradecimento.
Cimento também, pó, betoneira, “Mãos à obra, temo que terminar até as seis”, caixa de cimento, pá, picareta, britadeira, mãos em punho em seus instrumentos, hey ho let´s go, passa um carro com Ramones no ultimo volume, passa a mais de cem, tirando fina do cata jeca que recolhe os transeuntes.
“Sherek três, piratas do caribe três, cinco porcada (isso aí, porcada)...”
Pipoca com bacon, cheiro delicioso.
- Quanto ta a com bacon?
- um e cinqüenta
- me vê uma
- obrigado.
Mesma quadra...
- venha ler a mão querido
- Não dá, tô comendo pipoca
- Segura com a esquerda e eu leio a direita. Hum, vejo que existe uma loira em seu caminho
- Só se for aquela que ta vindo
- Não, é outra. Se não tem, terá em breve. Vejo que está triste.
- Até que não.
- Não é o que mostra seu espírito.
- sei lá, fico triste e alegre, depende, mas estou normal. Ah, vou embora...
- Me deve cinco...
- Haha. Entre nas pequenas causas e cobre
- Maldito, vai morrer seco e pobre...
- Seco e pobre eu já sou, pior é você, vai morrer gorda, pobre e tentando ludibriar gente burra.
- “seracanva” – deve ser alguma praga do dialeto cigano.
- sarava pra senhora também.
“Olha a foto, quarenta e oito fotos três por quatro, só cinco reais, sai na hora.”
“Restaurnte panorâmico, trezentos e doze tipos de saladas, nove (ao cubo) tipos de pratos quentes, bife a parmegiana e um copo de suco, come a vontade e paga só três e cinqüenta.”
“Tio vê um real pro leite”
“Ô camarada, num qué levá um trampo pra tua mina? ”
“O barato sai caro, eu to maluco de cara...”
“ói a boiboleta, ói a boiboleta”
Chora profeta Kalil Gibram, quem te mandou dizer que o medo da necessidade é a própria necessidade, assim como o medo da sede é a própria sede que nunca é saciada por completo.
Lado direito da rua, lá pelo oitavo andar um senhor segura uma cuia de chimarrão e olha com condolência o fervor da multidão, cospe para baixo, eu vi, ele me viu, só pode ser louco, mais um.
Apito que imita um miado de gato, um miado estridente de um gato filho da puta que seria morto à chutes pelo velho louco do chimarrão, um cara dá cacetadas no saco fazendo ingenuamente supor que lá dentro está o pobre felino, ninguém pára pra ver, ninguém para pra ver quase nada, matassem um à facadas e olhariam quatro segundos e meio e se comoveriam com o drama por quatro segundos e meio, contariam quando chegassem em casa e auto deletariam de sua memória em alguns dias. Não há registros do crime, diz a polícia, ninguém viu, não há vítimas ou culpados, não foi nada, absolutamente, foi tudo uma encenação meta real, todo sob controle. Andem transeuntes, vendam vendedoras, predizam videntes, peçam mendigos, cuspam velhos loucos, pois tudo continua como sempre foi e sempre será, nada de novo no front.
“as borboletas estão dançando a dança louca das borboletas”
Caras com pose blasé, cinéfilos, esnobes, alguns caminham na rua, um portando um livro do Anthony Burgess, outro discos do The Zombies, all star, calças com listrinhas colada na bunda, habituais caras de peixe morto, se sorriem é de sarcasmo. VÃO TODOS À BOSTA e depois assistam à mostra de cinema moderno de Kuala Lumpur.
De repente dá-se a volta e vai embora. Chega de tudo
Tuesday, July 24, 2007
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