Aposto que muitos, senão todos, desejam ter alguém do sexo oposto ao seu lado, alguém para dividir as coisas boas e más, toda aquela ladainha que o padre pronuncia antes do “SIM” no altar durante o ato matrimonial. Uma pessoa que entenda você, que se pareça contigo intelectualmente e nos gostos e hábitos, de boa aparência, que seja compatível com a sua.
Tomemos por exemplo um médico, bonito, bem sucedido financeiramente e culto, lá está ele enchendo o tanque de seu belo carro, enquanto a frentista abastece ele olha para ela e a deseja, deseja por alguns instantes, eles conversam, entre as idéias de um e de outro existe um muro de Berlim, uma barreira instransponível. O médico sentiu apenas um desejo puramente animal, durante a conversa seu lado homem racional faz com que seu desejo desaparecesse, se deu conta que não havia entre eles nenhum traço que pudesse compatibiliza-los, com exceção de serem bichos de uma mesma espécie. Ela era fisicamente atraente, mas, a priori, esse parecia seu único atributo.
O referido médico encontrou Lúcia, uma arquiteta, bela, instruída, carinhosa, alegre. Achou ela fantástica, uma pessoa sem igual, ela teve a mesma impressão dele, como conseqüência se casaram.
Deixo claro, não tenho nenhum preconceito contra frentistas ou pessoas de qualquer outra profissão, foi apenas um exemplo.
As coisas geralmente acontecem assim, claro que há exceções, naturalmente, principalmente nas novelas da Globo, onde a freqüência destoa da realidade, mas não entrarei nesse assunto para não desviar o foco.
O pai do médico é padeiro, tendo apenas completado o ensino médio, antigo segundo grau; a mãe ajuda o pai na padaria e cuida dos afazeres domésticos, tendo ambos a mesma escolaridade.
A frentista, durante um pagode na vila, conheceu o Almeida, trabalhador informal, vivia de biscate, foram apresentados, conversaram um pouco, se beijaram, foram pra casa do cara, já na maior empolgação e meio altos depois de várias cervejas, consumaram o coito. Sequer lembraram do preservativo, gozaram uma noite quente, ela estava nos dias férteis e engravidou. Ao saber da novidade Almeida resolveu fazer uma viagem, só não avisou ninguém de qual seria seu destino ou quando voltaria.
Depois de 7 anos de casamento e com a vida já financeiramente encaminhada, o médico e Lúcia resolveram ter um filho e tiveram, tudo correu bem, a criança cresceu forte e sadia, deram-lhe boa educação, tudo de melhor que o dinheiro pode pagar.
A frentista morava com a mãe, teve o filho, nunca mais teve notícias do Almeida, o garoto cresceu na vila, aos doze anos começou a trabalhar como lavador de peças numa oficina mecânica perto da casa da avó.
Ok, são apenas histórias comuns, qualquer um conhece casos parecidos, e sabe que em boa parte das vezes o desenrolar é o mesmo na estória acima apresentada, mas já pensaram quais as conseqüências de casos parecidos como esse acontecendo reiteradamente. O que isso pode acarretar?
Não sou sociólogo, nem tenho a mínima pretensão de ser, mas tomemos por base que as pessoas buscam se unir a outras pessoas compatíveis com elas (de acordo com as características do primeiro parágrafo) para constituírem família e seguirem adiante. Levemos em consideração que os pais do médico eram padeiros, com menor grau de instrução que o filho e que possivelmente o filho do médico será ainda mais instruído que seu pai e que, se seguir a maioria, procurará como par alguém com atributos compatíveis com os seus. Ainda, se o filho da frentista seguir a regra geral das tendências então ele dificilmente concluirá um curso superior, terá assim três destinos possíveis, achar uma companheira compatível, agir como seu pai, ou delinqüir.
Dois mundos bastante distintos, um deles é dos bons estudos, casas modernos, um bom padrão de vida, o outro é o da miséria, a confusão e do pão conseguido com todo suor que os poros conseguem exalar.
Bem, seguindo essa tendência, como será a sociedade daqui cinco gerações? Dez por cento com PhD e noventa por cento de pobres? Talvez mais, talvez menos. Será que essa casta superior criará um abismo cultural ainda mais instransponível do que o já existente? Chegarão a ser super seres? Lembremos, naturalmente essa casta também deve ser geneticamente modificada para se adaptar à expansão cultural, já que o darwinismo não trata só da adaptação física, mas também a intelectual. E a outra casta? Estagnará? Será que haverá uma classe intermediária, equivalente à média?
Quem viver verá, Stephen Hawking diz já saber a resposta, eu não sei de nada, com exceção das dúvidas que morrerão comigo.
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