O vazio tomou conta, calmantes já se mostravam ineficazes; conselhos de entes queridos entravam num por um ouvido e saiam, sem absorção, pelo outro; álcool já perderá a graça, cigarro entrava como o puro ar das montanhas. Assim, sobrestado em si, deixava as coisas tomarem seu rumo, sem interferir, tal como a árvore que sente o fogo próximo devastando a mata e como não tem pés, deixa se entregar às chamas, pois sabe a morte, inevitável, hoje ou daqui décadas, será seu destino. Ele tinha pernas, poderia correr, esgueirar-se, lutar, mas parecia enraizado pela situação compraz de desafetação ao mundo.
Há meses já não tinha vestes novas, se contentara com trapos rotos, melhor aparência não o faria mais ou menos feliz. Buscava nos livros fórmula ou receita de uma nova emoção, eles nada diziam, só reforçavam suas convicções do vazio.
O vazio, a morte personificada em vida. Morrer é necessário para depois ressuscitar com mais vigor. O melhor é estar morto vivo, esperar a próxima vida, que às vezes tarda, mas confia que não falha. Um estalido e uma luz, isso é o que há de esperar, uma quebra do status quo, o sol que degela, a força das águas rompendo a barragem, o fruto verde amadurecer, a mudez se quebrar num grito; que venha tudo isso, que seja breve a vinda, antes da loucura tornar-se dona da razão.
Sabe que ao esperar que galho cresça e traga a fruta até sua janela é um risco, o risco de que os pássaros comam a fruta; sabe que em subindo na árvore para alcançá-la também se arrisca em cair. Risco de todos os lados, mas medo em parte nenhuma. Olha sereno aos riscos e diz para si mesmo, que venham, quem tem a morte na alma nada tem a perder.
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